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Machismo e etarismo: quando a idade vira ofensa

Foto do escritor: Thaisa Lima
Thaisa Lima
há 11 minutos
5 min de leitura
Thaisa Lima diante de uma estante, com cabelos grisalhos e azuis, ao lado do título “Quando a idade vira ofensa — Machismo e etarismo”.

Quando a idade vira ofensa: o machismo que também aprendemos a repetir


No dia 2 de outubro, publiquei um vídeo sobre o colágeno que uso. Comecei dizendo: “Ontem eu completei 46 anos. Vocês acreditam nisso?”


Dias depois, uma mulher comentou: “Você não parece ter essa idade, parece ter uns 55 kkk”.


Talvez sejam meus cabelos brancos. Mas fiquei pensando: e se eu tivesse 55? Era pra ser uma ofensa?


Não tenho problema com a minha idade nem com o fato de estar envelhecendo. O que me incomoda é a facilidade com que a idade de uma mulher vira motivo de deboche. E, naquele caso, ver outra mulher usando isso para me diminuir.


Não conheço quem escreveu o comentário. Não sei o que ela pensa ou o que a levou a fazer isso. Mas a situação abre uma conversa sobre machismo e etarismo que vai muito além de nós duas.


O que aprendemos sobre o valor de uma mulher?


Uma cultura machista trata homens e mulheres como se eles tivessem direitos diferentes à liberdade, à autoridade e ao respeito. Ela aparece em atitudes explícitas, mas também nas expectativas que parecem normais de tanto serem repetidas.


Pense na mulher considerada mandona por se posicionar. Na mãe cobrada por cada detalhe da criação dos filhos enquanto o pai recebe elogios por fazer o básico. Na profissional cuja aparência entra na conversa antes da competência.


O patriarcado é uma forma de organizar as relações sociais que, historicamente, concentra poder e autoridade nos homens. O machismo ajuda a sustentar essa organização ao apresentar desigualdades como se fossem naturais: homem nasceu para liderar; mulher nasceu para cuidar e agradar.


Isso não significa que todos os homens tenham a mesma vida ou que todas as mulheres vivam as mesmas dificuldades. Significa que existe um padrão de distribuição de poder e de expectativas que influencia nossas escolhas, oportunidades e relações.


O PNUD explica que normas de gênero discriminatórias limitam aquilo que se espera que mulheres façam e sejam. Seu relatório de 2023 identificou preconceitos contra mulheres tanto entre homens quanto entre mulheres. Ser mulher, portanto, não nos deixa automaticamente livres das ideias da sociedade em que crescemos.[1]


Ninguém precisa dizer “odeie outras mulheres”


Esse aprendizado pode acontecer de maneira bem menos direta.


Quando ouvimos que amizade entre mulheres é sempre falsa. Quando uma mulher diz “não sou como as outras” e isso funciona como elogio. Quando duas profissionais são comparadas como se só uma pudesse ser boa. Quando o sucesso de alguém vira motivo para investigar sua vida íntima, em vez de reconhecer seu trabalho.


A mensagem que se repete é que precisamos nos destacar das outras para merecer respeito. A outra mulher passa a ser vista como concorrente por beleza, atenção, reconhecimento ou espaço.


Isso ajuda a explicar o que chamamos de machismo internalizado: quando absorvemos ideias machistas e passamos a aplicá-las a nós mesmas e a outras mulheres. A pesquisa sobre sexismo internalizado observa, por exemplo, a desvalorização de mulheres e a maneira como elas podem ser tratadas como objetos de avaliação ou concorrentes nas conversas cotidianas.[2]


Não significa que mulheres nasçam inimigas ou que toda desavença seja fruto do patriarcado. Temos personalidades diferentes, interesses diferentes e motivos reais para discordar.


Mas vale perguntar de onde veio a régua que usamos para julgar umas às outras.


Se uma mulher aparece feliz com a própria imagem, por que alguém sente necessidade de apontar um defeito? Se conquista alguma coisa, por que a primeira reação pode ser procurar uma explicação que diminua seu mérito?


Essas perguntas não diagnosticam ninguém. Servem para examinarmos também o que nós mesmas aprendemos a repetir.


Machismo e etarismo: a cobrança para envelhecer sem parecer que envelhecemos


No comentário que recebi, o número 55 veio acompanhado de uma risada. Eu li aquilo como deboche porque parecer mais velha foi apresentado como algo que deveria me constranger.


É essa associação que questiono.


O preconceito relacionado à idade tem nome: etarismo. A Organização Mundial da Saúde o define a partir dos estereótipos, preconceitos e discriminações baseados na idade, dirigidos aos outros ou a nós mesmos.[3]


Na vida das mulheres, essa cobrança pode se misturar ao machismo. Já somos avaliadas pela aparência e ainda precisamos lidar com a ideia de que envelhecer nos faz perder valor.


Se deixamos os cabelos brancos, estamos desleixadas. Se pintamos, queremos esconder a idade. Se fazemos procedimentos, exageramos. Se não fazemos, alguém aparece para dizer que estamos precisando.


Fica difícil acertar quando cada escolha pode virar motivo de fiscalização.


E cuidar da aparência não é o problema. Posso gostar de cosméticos, usar colágeno, pintar o cabelo ou decidir não pintar. Nada disso me obriga a tratar o envelhecimento como vergonha. Muito menos me dá o direito de avaliar o rosto de outra mulher como se ela tivesse pedido uma nota.


Apoiar outra mulher não exige concordar com tudo


Quando falo de apoio entre mulheres, não estou propondo uma obrigação de gostar de todas. Podemos criticar atitudes, cobrar responsabilidade, encerrar amizades e estabelecer limites.


A diferença está no motivo e na forma.


Dizer que uma profissional não cumpriu o combinado é uma crítica à sua conduta. Usar o corpo, a idade ou a vida sexual dela para desqualificá-la é outra coisa.


Apoio também pode ser reconhecer o trabalho de alguém sem diminuir o próprio. Indicar uma profissional competente. Não espalhar uma humilhação. Perceber um julgamento automático e perguntar: eu cobraria isso de um homem?


Reconhecer a influência da cultura não apaga nossa responsabilidade pelo que fazemos. Ajuda a perceber o que precisa mudar.


E eu não quero responder a um comentário desses com “mulher é a pior inimiga de mulher”. Essa frase transforma um comportamento em destino e reforça justamente a desconfiança que estou questionando.


As mulheres que escolho colocar nos meus livros


Como escritora, gosto de trazer para minhas histórias mulheres que apoiam outras mulheres. Que se alegram com as conquistas das amigas e constroem vínculos para a vida toda.


Elas podem errar, discordar e ter conflitos. A amizade continua tendo espaço, profundidade e importância na história.


Quero escrever mulheres que não precisem humilhar outra para demonstrar força. E quero que minhas leitoras também encontrem essas possibilidades: uma amiga que acredita, alguém que ajuda, uma relação que não depende de competição o tempo inteiro.


Foi nisso que pensei depois daquele comentário.


Tenho 46 anos. Não preciso convencer ninguém de que pareço mais nova para merecer respeito. E uma mulher de 55, 65 ou 80 também não.


Se você gosta de histórias em que mulheres encontram apoio umas nas outras, fica o convite para conhecer meus livros.


E deixo uma pergunta: quando foi que nos ensinaram a olhar para outra mulher procurando o que diminuir?


Fontes consultadas


[2] Bearman, S.; Korobov, N.; Thorne, A. (2009). The Fabric of Internalized Sexism. Estudo qualitativo com universitárias; ajuda a compreender práticas de sexismo internalizado, sem representar todas as mulheres ou determinar a motivação de uma pessoa específica.

[3] Organização Mundial da Saúde. Ageism.

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