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Dificuldade de se abrir emocionalmente | A pessoa que ouve

  • Foto do escritor: Thaisa Lima
    Thaisa Lima
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
Imagem representando a dificuldade de se abrir emocionalmente e a sensação de ser sempre a pessoa que ouve.

A pessoa que ouve


Acho que perdi a capacidade de me comunicar. De me abrir verdadeiramente com as pessoas.


Não sei exatamente quando essa dificuldade de me abrir emocionalmente começou.


Ou eu falo demais, ou simplesmente me fecho e não digo nada.


Não existe meio-termo.


Quando decido falar, parece que todas as palavras guardadas encontram uma brecha e tentam sair ao mesmo tempo. Eu conto o que aconteceu, o que senti, o que pensei, o que doeu. Tento explicar cada detalhe como se precisasse fazer a outra pessoa enxergar aquilo que existe dentro de mim.


Como se não bastasse dizer que doeu.


Eu preciso mostrar onde doeu, como doeu e por que ainda dói.


Mas falar demais é como arrancar a casca fina de uma ferida que mal começou a cicatrizar.


Quando retiro essa proteção, exponho novamente o corte, o sangue e a dor. E, por alguns instantes, sinto certo alívio. Finalmente alguém pode ver aquilo que passei tanto tempo tentando esconder.


Depois vem o arrependimento.


Começo a repassar tudo o que disse. Penso nas palavras que poderia ter evitado, nos detalhes que deveria ter guardado e nas partes de mim que entreguei sem saber o que aquela pessoa faria com elas.


Talvez eu não tenha perdido a capacidade de me comunicar.


Talvez eu tenha perdido a capacidade de confiar.


São poucas as pessoas em quem confio. E mesmo para elas entrego apenas o mínimo daquilo que sinto. Algumas partes cuidadosamente escolhidas. Histórias pela metade. Dores já amenizadas pelo tempo, contadas apenas quando acredito que já não podem mais me ferir.


Nem com as pessoas em quem mais confio consigo me abrir completamente.

Na verdade, com elas eu me abro de menos.


Não sei até que ponto isso é ruim.


Infelizmente, quando confiamos demais, também corremos o risco de sofrer. E nem sempre sofremos na mesma proporção em que nos entregamos. Às vezes, sofremos muito mais do que deveríamos.


Por isso, aprender a me guardar parece algo bom.


Passei a me resguardar, a medir palavras e a esconder sentimentos antes que alguém tivesse a oportunidade de usá-los contra mim. Aprendi a suportar sozinha aquilo que antes teria vontade de dividir.


Assim, evito algumas decepções.


Mas até que ponto é bom passar a vida evitando sofrer?


Porque, para impedir que alguém toque na ferida, também preciso impedir que alguém se aproxime dela. E talvez ninguém consiga cuidar daquilo que eu nunca permito que veja.


Eu não sei.


Só sei que passei tanto tempo sendo a pessoa que ouve, que escuta e que está sempre disponível para ser o ombro amigo, que acabei me tornando aquela que não sabe mais onde apoiar a própria cabeça.


As pessoas chegam até mim carregadas de histórias, medos e dores. Eu acolho, aconselho e tento compreender. Guardo segredos que não são meus e ajudo a organizar sentimentos que também não me pertencem.


Mas, quando chega a minha vez de falar, alguma coisa trava.


Talvez porque eu tenha me acostumado a ocupar apenas o lugar de quem escuta.

Talvez porque, depois de tanto tempo guardando tudo, eu já não saiba mais como entregar o que sinto.


Não é que me faltem pessoas em quem confiar. Eu tenho pessoas diante de quem poderia me abrir sem medo, pessoas que saberiam acolher aquilo que existe dentro de mim.


Eu sei disso.


O problema é que, mesmo quando existe espaço do outro lado, alguma coisa em mim continua fechada.


E talvez essa seja a parte mais difícil de admitir:

eu não me calo porque não tenho com quem falar.


Eu me calo porque já não sei mais como começar.


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