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Frustração com as redes sociais: quando duvido do que crio

Foto do escritor: Thaisa Lima
Thaisa Lima
há 20 horas
6 min de leitura
Thaisa Lima sorrindo diante de uma estante de livros, ao lado do título “Eu gostava do que criei. Até olhar as visualizações.”

Eu gostava do que criei. Até olhar as visualizações.


Ontem eu estava animada.


Produzi, gravei, editei, publiquei. Terminei o dia com aquela sensação boa de ter feito as coisas andarem. Gostei do que criei e fiquei empolgada com as próximas ideias.


Hoje, abri as estatísticas.


Dez visualizações. Zero comentários. Zero vendas.


Pronto. Já estou considerando desistir dos vídeos, dos livros e de qualquer atividade que envolva esperar que alguém se interesse pelo que eu faço.

Sim, eu consigo sair do “agora vai” para o “não quero mais nada” com uma rapidez que poderia ser útil em outras áreas da minha vida.


Foi dessa oscilação que nasceu o novo episódio de Eu, Luna e 47 ideias. Mas, por trás da brincadeira, existe uma frustração com as redes sociais que eu queria conversar com mais calma por aqui.


Assista ao vídeo aqui: Eu, Luna e 47 ideias


Porque, nessas horas, eu começo a achar que não sirvo para isso. Que posso trabalhar, estudar, tentar de novo, mas nunca vou chegar àquilo que as pessoas chamam de sucesso.


O trabalho que aparece só para quem fez


Quem assiste a um vídeo vê o resultado. Eu sei o que deu trabalho para chegar até ali.


A ideia, o roteiro, a gravação, as tentativas que não funcionaram, a edição. Meu celular vive com a memória cheia por conta das inúmeras tentativas. Quando publico, tenho uma expectativa. Quero que as pessoas assistam, comentem, se interessem. Quero sentir que aquele esforço encontrou alguém.


Com os livros, também. Quero que as histórias cheguem aos leitores, sejam lidas, provoquem alguma coisa. Quero vender os livros que escrevi.


E, quando não vejo esse retorno, é difícil não pensar: para quê?


A situação piora quando aparece outro vídeo, aparentemente simples, com um monte de gente assistindo e comentando. Eu olho e penso: “Mas o que esse vídeo tem?”


Talvez ele tenha algo que eu não percebi. Talvez tenha feito sentido para um público diferente. O fato é que eu não tenho informação suficiente para explicar o resultado.


Só que, na hora da frustração, meu pensamento não faz uma análise muito cuidadosa. Ele pula direto para: todo mundo consegue, menos eu. Pego o meu resultado que me decepcionou, comparo com o sucesso de outra pessoa e uso isso para avaliar tudo o que faço. Anos de trabalho entram no julgamento de uma vez.


Quando a frustração com as redes sociais me faz duvidar de mim


Eu queria conseguir olhar para um resultado ruim e pensar apenas no que posso ajustar. Mas nem sempre consigo.


Quando não vejo engajamento, vendas, leitores chegando ou pelo menos um vídeo alcançando mais pessoas, começo a me perguntar se estou insistindo em algo para o qual não tenho capacidade.


E se eu nunca conseguir?


E se continuar trabalhando desse jeito e o retorno que espero nunca vier?


É uma sensação de nadar, nadar e morrer na beira da praia. Eu reconheço o esforço, sei o quanto fiz, mas parece que nunca é suficiente para chegar aonde quero.


Aos poucos, a pergunta deixa de ser “por que isso não funcionou?” e vira “o que tem de errado comigo?”.


Essa frustração foi um dos motivos que me fizeram passar cinco longos anos sem escrever.


Cinco anos.


Por isso, quando brinco que vou desistir de tudo, sei que essa vontade pode ter consequências reais. Já teve.


Hoje eu voltei a escrever, mas ainda conheço muito bem esse pensamento de que talvez eu nunca consiga. Ele reaparece quando não vejo resultado e começa a colocar em dúvida até aquilo que, pouco antes, eu estava feliz por ter criado.


“Faça por amor” não resolve essa conversa


Eu gosto de escrever. Gosto de criar histórias, pensar em vídeos e colocar ideias no mundo.


Mas isso também é trabalho.


Por isso, quando falo que quero retorno, não estou falando apenas de gostar de receber elogios. Quero leitores para os meus livros, oportunidades profissionais e dinheiro pelo trabalho que realizo.


Tenho contas para pagar. Não dá para responder a um boleto com “mas eu me diverti muito durante o processo”.


Transformar algo de que gostamos em profissão traz essa complicação: o prazer continua importante, mas passa a dividir espaço com a necessidade de resultado.

Querer viver do que faço não diminui o quanto gosto de fazer. Só significa que preciso encontrar uma forma de sustentar esse trabalho e a minha vida.


E fica difícil descansar quando sempre existe alguma coisa que poderia ser feita para melhorar o resultado. Outro vídeo. Outra divulgação. Uma nova abordagem. Mais uma tentativa.


Se eu paro, penso no que poderia estar produzindo. Se produzo e não vejo retorno, penso que deveria ter feito mais ou melhor.


É cansativo. Até uma atividade que começou como prazer pode ganhar cara de dívida.


O que mudou entre ontem e hoje?


Essa é a pergunta que mais me incomoda.


Ontem eu gostei do vídeo. Hoje, depois de olhar as visualizações, comecei a achar que ele não era tão bom.


O vídeo continuava igual.


O que mudou foi a informação que eu tinha sobre a reação das pessoas — ou sobre quantas pessoas chegaram a vê-lo.


Isso não significa que eu deva ignorar os números. Um conteúdo pode precisar de ajustes. Talvez a abertura esteja longa, talvez a ideia não esteja clara. Também posso ter gostado de uma coisa que não funcionou para quem assistiu.


Mas um resultado baixo, sozinho, não explica o que aconteceu. Muito menos responde se eu deveria continuar escrevendo ou criando.


Mesmo assim, às vezes eu entrego a ele o poder de decidir tudo isso.


E não adianta simplesmente dizer para mim mesma que os números não importam. Eles importam para o meu trabalho. O que me faz mal é usá-los como resposta para uma pergunta muito maior: eu sou capaz?


A comparação vem com informações faltando


Quando olho para outra pessoa, vejo o que ela publicou e o resultado que ficou visível para mim.


Não sei quantas tentativas vieram antes. Não conheço toda a rotina, os recursos, as dificuldades ou o que ela esperava daquele trabalho.


Da minha parte, conheço cada esforço. Sei o tempo que gastei, o que precisei aprender, o que deixei para depois para conseguir produzir.


Então comparo o meu dia inteiro com alguns segundos da vida de outra pessoa.


Reconhecer isso não faz a frustração desaparecer. Eu posso entender perfeitamente que a comparação é injusta e continuar me sentindo mal. Posso saber que o sucesso de alguém não significa o meu fracasso e, ainda assim, me perguntar quando vai chegar a minha vez de ver o retorno que procuro.


Não gosto de admitir isso, mas fingir que não sinto também não ajuda.


Não quero decidir tudo no dia em que estou desanimada


Não tenho uma solução bonita para encerrar esse texto. Também não vou prometer que amanhã estarei imune às estatísticas, feliz por criar e livre de qualquer comparação.


Com os boletos magicamente pagos, talvez eu conseguisse olhar para os números com um pouco mais de tranquilidade. Mas ainda ia querer que lessem minhas histórias.


Provavelmente vou me frustrar de novo.


O que quero tentar é dar um pouco de tempo entre sentir essa frustração e decidir abandonar todos os meus projetos.


Depois, posso olhar para o trabalho com mais calma. Entender o que merece outra tentativa, o que precisa mudar e o que talvez esteja consumindo mais do que consigo oferecer.


Também não acho que continuar a qualquer custo seja uma obrigação. Existem projetos que precisam de pausa. Existem caminhos que podem ser revistos.

Só gostaria de fazer essas escolhas considerando mais coisas do que o desânimo daquele dia. Não quero voltar a me afastar da escrita por acreditar que a falta do retorno que desejo prova que eu não tenho nada a oferecer.


Ainda quero vender. Quero leitores, oportunidades e pessoas interessadas no que faço. Não vou fingir que deixei de querer tudo isso para conseguir terminar o texto com uma lição bonita.


Mas também quero conseguir olhar para o meu trabalho sem transformar cada resultado abaixo do esperado numa sentença sobre a minha capacidade.


Ontem, antes de abrir as estatísticas, eu tinha motivos para gostar do que criei.

Hoje estou frustrada. Quero conseguir reconhecer as duas coisas.


Você também passa por isso? Quando o retorno não vem, consegue avaliar o trabalho ou começa a duvidar de si?


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