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O Alçapão: Conto de Terror Psicológico Sobre uma Lenda Esquecida

  • Foto do escritor: Thaisa Lima
    Thaisa Lima
  • há 3 dias
  • 8 min de leitura
Ilustração sombria de um quarto antigo com uma cama de madeira, um alçapão aberto no chão e atmosfera de suspense inspirada no conto O Alçapão.

O Alçapão é um conto de terror psicológico ambientado em um antigo sítio no interior. Entre lendas esquecidas, mistérios familiares e acontecimentos perturbadores, uma descoberta sob a cama transforma uma noite de medo em uma revelação surpreendente.

Algumas lendas escondem monstros. Outras escondem vítimas.

O Alçapão


Depois dos últimos acontecimentos, Roberto passou a dormir comigo. Eu me sinto mais tranquila com ele ao meu lado. Pelo menos me sentia, até ontem à noite, quando ele começou a rosnar, olhando fixamente para debaixo da cama.


Não dei muita atenção no início. Com certeza ele tinha visto um rato ou uma barata, foi o que pensei na hora. Mas o rosnado não parava. Ele permanecia imóvel, com o olhar fixo.


O que me alertou foi o fato de ele não avançar. Se fosse realmente um bicho, o estrago seria grande. Roberto se enfiaria embaixo da cama até pegar o pobre animal. Mas, em vez de avançar, ele recuava.


Olhei com atenção para meu cachorro. Ele tremia. Chamei-o para a cama. Roberto me olhou rápido e choramingou, mas continuou atento ao que quer que estivesse chamando sua atenção.


Um arrepio desconfortável percorreu toda a extensão da minha espinha dorsal, e meu corpo congelou.


Fui tomada pelo mesmo medo que Roberto sentia.


Insisti para que ele subisse na cama. Mesmo assustada, eu precisava proteger meu cachorro do que quer que fosse aquilo embaixo da cama. Ele deve ter notado meu desespero, porque subiu imediatamente e se deitou ao meu lado, choramingando baixinho, sem tirar os olhos do chão.


Fiquei observando. Tentando escutar alguma coisa. Um movimento. Um ruído. Roberto não desviava os olhos da escuridão sob a cama. Meu corpo permanecia tenso, atento a tudo. Apenas um feixe de luz, passando por baixo da porta, iluminava o quarto.


A escuridão despertou todos os meus outros sentidos.


Foi quando senti alguma coisa puxando meu lençol.


Coisa pouca.


Só o suficiente para eu ter certeza de que não era imaginação. Nem um bicho embaixo da cama.


Gritei e colei as costas na cabeceira, as pernas junto ao peito. Roberto deu um salto e ficou em pé, em alerta. Começou a latir e a tremer. Puxei-o para perto de mim e o abracei.


Meu coração batia forte contra o peito. A respiração estava acelerada. Sentir meu cachorro junto de mim me deu uma falsa sensação de segurança, mas eu temia mais pela vida dele do que pela minha.


Ficamos assim, abraçados, por minutos. Talvez horas. Não sei. Esqueci de olhar as horas.


Quando tudo ficou quieto novamente e senti Roberto relaxar, deitei. Não foi a primeira vez que coisas estranhas aconteceram neste sítio. Acho que a adrenalina começou a passar, porque minhas mãos tremiam e fiquei tonta.


Deitei novamente.


De repente, fui tomada por um cansaço que só sinto quando passo o dia inteiro na plantação. Fechei os olhos, mas, antes de pegar no sono, ouvi.


Baixinho, mas tão claro quanto o choramingo de Roberto:


— Janice…


Meu coração acelerou novamente. Desta vez, quem deu um pulo fui eu. Saltei da cama, Roberto me acompanhou, e corri para o antigo quarto da minha avó.


O gato dormia todo enroscado na cama dela. Deixei a luz acesa, sentei no canto da cama, colada à parede, e não dormi mais.


Vi o sol nascer e agora estou aqui, com uma lanterna nas mãos, decidindo se devo ou não olhar embaixo da minha cama.


Quando me mudei para o sítio da vovó, não fazia ideia das coisas estranhas que aconteciam durante a noite nesta casa. Como ela conseguiu morar aqui sozinha por tantos anos?


— Minha fia, os vivo dão mais medo do que os morto.


A voz da minha vozinha ecoa em minha mente. Sinto tanta falta dela…


Ela sempre me dizia isso quando eu era criança e voltava correndo para casa depois de ouvir as histórias de malassombro que o vô do Tião contava para a gente.


— Roberto, vem comigo?


Meu cachorro levanta a cabeça ao ouvir seu nome e prontamente se põe de pé.


Devagar, caminhamos pelo corredor até o meu quarto. A porta ainda está aberta. Quando corri desesperada na madrugada, nem pensei em trancá-la para impedir “a coisa” de sair de lá e me pegar.


Enquanto caminho até a cama, lembro da lenda que existe aqui no povoado. Trato de jogar essa lembrança para longe. Não quero nem imaginar que o que puxou meu lençol ontem e chamou meu nome seja isso.


Ligo a lanterna e me ajoelho. Meus batimentos aceleram, e sinto dificuldade para respirar. Puxo o ar com força pelo nariz e solto pela boca.


Roberto para ao meu lado e fareja o ar. Ele não está rosnando. Acho que isso é um bom sinal.


Lentamente, inclino meu corpo para a frente e aponto a luz para debaixo da cama.


Nada.


Não vejo ninguém.


Mas, para minha total surpresa, encontro um alçapão aberto.


Eu não sabia que existia um alçapão debaixo do meu quarto. Seria algum esconderijo antigo da vovó?


O medo dá lugar à curiosidade. Empurro a pesada cama de madeira e me aproximo do buraco para ver o que há ali.


— Roberto! — grito, e meu cachorro pula para o lado, assustado. — Mas o que é isso?


Não encontrei coisas da vovó. Dentro do alçapão, há uma escada.


O medo da noite anterior volta com força, e minhas mãos tremem. A lanterna cai dentro do buraco e ilumina uma parte do chão de madeira.


Tem alguma coisa ali.


Abandono o medo e desço a escada. No fim dela, encontro um corredor estreito que passa por baixo da casa. Pego a lanterna e aponto para o lugar que chamou minha atenção.


O piso empoeirado tem marcas.


Parecem pegadas.


E são recentes.


— Meu Deus…


Tampo depressa a boca com a mão e fico imóvel.


“Minha fia, os vivo dão mais medo do que os morto.”


A frase da vovó surge novamente em minha mente e faz meu sangue gelar nas veias. Estou começando a ficar apavorada.


Essas pegadas são de um humano.


Sigo devagar pelo corredor. Minhas pernas trêmulas me fazem tropeçar no meu próprio pé, e me seguro na áspera parede de madeira para não cair e fazer barulho.


Continuo caminhando e avisto uma porta.


Meu coração para de bater por dois segundos.


Prendo a respiração. Encosto o ouvido na madeira.


Nada.


Não ouço nada.


Seguro a maçaneta. Sinto o ferro molhado, frio. Retiro a mão depressa e olho para a palma. Está muito suada. Esfrego-a no moletom e volto a segurar a maçaneta.


Giro devagar.


Abro a porta.


Dou um passo para trás e caio sentada no chão.


Meus olhos não acreditam no que estão vendo.


Atrás da porta, existe um quarto.


Levanto e pego a lanterna que caiu ao meu lado. A luz pisca. Dou uma batidinha no fundo, e ela volta a ficar forte.


Aponto a lanterna para dentro. O que vejo só comprova que meus instintos, gritando para eu sair correndo desta casa, estão certos.


Ao mesmo tempo, quero ficar.


Se minha avó viveu aqui por 93 anos sem que nada acontecesse com ela, talvez eu também consiga.


No quarto, há um colchão velho no chão, dois cobertores e um travesseiro. Ao lado, garrafas de água cheias e vazias, além de restos de comida.


Alguém vivia ali.


No meio do colchão, entre os cobertores, há uma caixa.


Aproximo-me. Estico a mão, tentando abri-la para ver o que há dentro, quando ouço o latido de Roberto.


Um latido de alerta.


— Estou bem, Roberto — tento acalmar meu cachorro, mas, antes mesmo que eu perceba, ele já está ao meu lado, balançando o rabo. — Como você…? Se machucou?


Ele começa a cheirar tudo e a rosnar baixinho, igual fez ontem à noite.


Sento no chão, de frente para a porta aberta, e pego a caixa. Antes de abri-la, observo por fora.


Nada.


Abro devagar, com receio de que alguma coisa assustadora pule de dentro dela para cima de mim.


Roberto inspeciona tudo com seu focinho sensível e espirra. Depois volta a cheirar cada centímetro do ambiente.


Meus olhos quase saltam das órbitas.


Dentro da caixa, há várias fotos.


Todas minhas.


Em diferentes momentos.


Estou dormindo na minha cama, sentada na varanda lendo, cuidando das galinhas… Há uma que, pelo ângulo da imagem, foi tirada de dentro do meu quarto.


Fotos mais antigas.


Outras tiradas nesta semana.


Despejo as fotos em cima do colchão. Uma delas fica presa no fundo da caixa. Aponto a luz da lanterna para ver melhor e solto um gritinho.


Na foto, estou ajoelhada, olhando embaixo da minha cama.


Ela foi tirada hoje de manhã.


Com as mãos trêmulas, pego a foto.


Atrás dela, alguém escreveu:

“Finalmente você me encontrou.”


Ouço um rangido atrás de mim.


Viro-me assustada, o coração se chocando forte contra meu peito. Quero gritar, sair correndo, pedir socorro.


Mas ouço um miado e olho para baixo.


É o gato.


Ele me observa, parado na porta. Respiro aliviada, tentando me acalmar. Ele continua ali, olhando para a parede e arranhando a madeira sem parar.


Aproximo-me.


— O que foi, Nico?


Ele arranha com mais força aquela parte específica da madeira, bem de frente para a porta.


Acho que tem alguma coisa ali.


Bato com os dedos e ouço um som oco. Tento puxar a madeira, mas não consigo. Corro até a escada e subo. Vou à cozinha, pego uma faca e volto para o alçapão.


Forço um pouco a madeira onde Nico estava arranhando, e uma porta escondida se abre.


É um compartimento pequeno, como um esconderijo.


Dentro dele, há um maço de cartas escritas pela minha avó.


Pego as cartas e volto para meu quarto com Nico e Roberto. Sento na minha cama, e os dois se aninham ao meu lado.


Deslizo os dedos sobre a letra bonita da minha avó e sinto lágrimas quentes escorrerem pelas minhas bochechas.


Começo a ler as cartas.


Todas falam sobre um menino. O menino da velha lenda do povoado. A história que me assombrava desde criança.


O menino amaldiçoado que era um lobisomem e desapareceu na mata muitos anos antes. O lobisomem que comia criancinhas.


Mas as cartas contam outra história.


Minha avó escrevia sobre um garoto assustado, que nasceu diferente e quase foi morto pelos moradores por causa da própria aparência. Ela o encontrou escondido na mata em um dia em que tinha ido tomar banho de rio. Ele estava muito sujo, machucado e terrivelmente assustado.


Ela decidiu protegê-lo.


Numa das cartas, ela escreveu:

“Ele não é um monstro. Só tem medo das pessoas.”


Termino de ler as cartas sem acreditar no que acabei de descobrir. Meu nariz está entupido, e meus olhos ardem de tanto chorar.


Ouço passos no corredor.


Roberto ergue as orelhas, e os pelos de seu dorso se arrepiam. Ele rosna baixinho. Meu corpo paralisa.


Os passos continuam, lentos, vindo na direção do quarto.


Roberto pula da cama e fareja compulsivamente por baixo da porta. Depois arranha a madeira.


Eu me encolho no canto da cama, com as costas coladas à cabeceira e as pernas dobradas contra o peito. Meu corpo treme.


O trinco da porta gira lentamente.


Roberto pula para trás, latindo.


Fico paralisada, olhando fixamente para a porta.


Eu vou morrer…


Balanço a cabeça de um lado para o outro, tentando afastar esse pensamento.


A porta se abre devagar.


Roberto pula na cama e fica em pé, de frente para mim, latindo em direção à porta.


O gato corre na direção do homem parado no corredor.


Ele me olha. Tem o rosto coberto de pelos negros, cabelos compridos e veste roupas simples. Parece ter pouco mais de 40 anos.


E parece mais assustado do que eu.


Sua mão ainda segura a maçaneta. Ela treme.


O gato esfrega a cabeça em sua perna. O homem o pega e o segura no colo. Parece que eles se conhecem há anos.


Talvez Nico seja o único amigo que ele tem.


O homem recua um passo. Percebo que seu corpo treme. Não parece medo de ser descoberto, mas medo de mim.


Ele mexe a boca como se fosse dizer algo, mas para. Arregala os olhos e abaixa a cabeça.


Nico se aninha nos braços dele e esfrega a cabeça em seu peito. O homem acaricia o dorso de Nico, e vejo um vislumbre de sorriso surgir em seus lábios.


Ele beija a cabecinha fofa do gato e pigarreia.


Tenta novamente.


A voz sai baixa, quase um sussurro.


— Achei que ninguém mais lembrava de mim.


Olho para as cartas da vovó ao meu lado, na cama. Imagens do menino da lenda surgem em minha mente. O pequeno garoto que chamavam de monstro. O menino que tentaram matar. O menino que minha avó decidiu salvar.


E, naquele instante, compreendo.


O verdadeiro monstro daquela história nunca tinha sido ele.


2 comentários


Sarah Sousa
Sarah Sousa
há 2 dias

Muito bom, gosto da escrita desenrolada mas que ao mesmo tempo faz o suspense de doer a barriga.

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Milena Testa
Milena Testa
há 3 dias

Excelente conto de terror, com um final que faz a gente pensar!

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